segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Razão de viver

          Certa vez um garoto caminhando sem rumo deparou-se com uma garotinha cabisbaixa sentada ao pé de uma árvore no meio do parque. O que será que ela tem? Pensou por alguns instantes e sem hesitar ficou observando o que se sucederia. Mas nada acontecia, ela continuava fitando ao longe como se viajasse ao som do vento que tocava sua face e esvoaçava seus cabelos. De repente ela se levanta, espreguiça-se e segue caminhando rumo a saída do parque. Pensou em segui-la visto que já era tarde pra que não acontecesse nada à ela em sua volta pra casa. Mas achou melhor não e continuou sua caminhada sem rumo pela noite enluarada.
           Ela teria medo ao notar que a seguia, sou um desconhecido. Refletiu a noite toda sobre o ocorrido, pensou em várias hipóteses sem chegar a nenhuma conclusão. Por que não tentar perguntar a ela? Não cabe a mim perguntar, o que ela faz diz respeito somente a ela e não a mim, desconhecido ser errante.
           Passado um tempo eis que novamente encontraram-se, olharam-se por um segundo e desviaram o olhar e os passos rumos destinos diferentes. O garoto virou-se e viu que a garotinha caminhava levemente, como se flutuasse em nuvens. Estava diferente daquela que dias atrás avistou cabisbaixa. Deve ter encontrado a resposta pra suas dúvidas. Será que aquela árvore lhe disse algo? Impossível, árvores não falam... devo estar ficando louco pensou, e continuou sua jornada.
          Mas todos os dias aquela expressão angelical o intrigava em seus sonhos... Ela era uma desconhecida... não sabia sequer o nome dela, de onde vinha, o que queria, por que seu sorriso havia ficado estampado em sua memória...
          Outro dia sem esperar ao ler as noticias matinais depara-se com uma manchete que carregava uma foto daquela garotinha. Achou estranho pois havia visto ela uns dias atrás, havia falecido na manhã de ontem com uma expressão de contentamento. Parecia ter aproveitado seus últimos dias de vida com intensidade, será que quando a encontrou pela primeira vez cabisbaixa estava a pensar no por que de sua doença? Deve ter achado a resposta e vivido seus últimos dias como se não houvesse amanhã.
          Seu sorriso contagiava todos ao seu redor, sua expressão ficou gravada na memória daquele garoto, que percebeu o quanto a vida pode ser injusta, e o quanto temos de dar valor a cada momento que vivemos, a cada instante que passamos ao lado das pessoas que amamos, ou mesmo as pessoas que encontramos e não tivemos tempo de conhecer. A vida deste garoto mudou após esse encontro com a vida e seus valores desconhecidos... que eram tão conhecidos quanto a sua própria imagem diante do espelho dos anos.

27-12-2010
JYM
       

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